Opinião: "A Árvore da Vida" (2011)

Pude assistir à "Árvore da Vida", filme de 2011 dirigido por Terrence Malick, no cinema pouco dias antes de sair de cartaz e, pela primeira vez na vida, vi um filme ser execrado por quase toda a audiência presente com uma irônica salva de palmas de alívio ao seu final. A partir daí, pude testemunhar duas reações radicalmente opostas a essa película, um verdadeiro clichê da vida real: ora se o ama, ora se o odeia. Em geral é sabido que a "Árvore da Vida" não é um filme para a maioria das pessoas. De fato, a maioria dos que se interessam em vê-lo possuem um gosto pelo menos um pouco mais sofisticado em relação a cinema. E é justamente entre esse público, que espera um pouco mais de uma obra audiovisual, que se encontra a referida divisão de gosto.

Eu não vi os filmes do Malick feitos antes de "The Thin Red Line", filme de reestreia após 20 anos de hiato artístico, mas, desses últimos três, "A Árvore da Vida" é sem dúvida o mais difícil de ser compreendido, pois possui uma vastidão de intertexto tratada com um jeito próprio de narrar, jeito esse que não é novidade para quem já assistiu o já referido "The Thin Red Line" ou "The New World", justamente os dois últimos filmes do diretor. Essa forma de narrativa consiste em um sem-número de cenas curtas com cortes abruptos. Eu não sei descrever muito bem o que ele faz com a câmera, mas é como se estivéssemos sendo carregados por entre o cenário, tentando ver o que se passa. Às vezes os cortes são tão rápidos que nem sempre conseguimos capturar a essência da cena.

Outra característica do estilo dele talvez seja a extrema concisão. Uma ou duas cenas rápidas são suficientes para passar uma grande quantidade de informação, às vezes fundamentais para o entendimento de toda a obra. Em "A Árvore da Vida", por exemplo, já vi comentários de gente que passou o filme inteiro sem entender qual era o filho que morreu, ou qual dos três irmãos era a personagem do Sean Penn quando criança. Isso aconteceu porque o diretor definiu as personagem em poucas cenas no início do filme. Quem não captou, ficou sem entender quem era quem o filme inteiro. Assim, creio que boa parte da falta de entendimento sobre o filme se deva à falta de prática com o estilo de Malick. Vale ressaltar ainda que a própria concisão que ele consegue em "A Árvore da Vida" faz parte do valor estético que eu atribuo a esse filme.

Uma digressão: quando penso em cortes abruptos, penso no cinema brasileiro influenciado pelo Cinema Novo. Um dia decidi assistir a um filme de Glauber Rocha, "Deus e o Demônio da Terra do Sol".. Achei tosco, talvez deliberadamente tosco. Cenas demasiado longas, prolixas. Pareceu-me muito filme para pouco o que falar. Não gostei. E gostei muito menos de sua dita obra-prima. "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro". Talvez me falte a erudição necessária para apreciar direito. Talvez seja ruim mesmo. Nunca saberei.

Outra possível causa de desconforto no filme é que, em algumas cenas, a ação é absolutamente irrelevante. São cenas inteiramente descritivas, apesar de servirem à narrativa. É o caso de várias metáforas visuais utilizadas principalmente no início e na parte final. Não, eu não me refiro à parte "Discovery Channel" no começo. Aquilo não são metáforas e são cenas essencialmente narrativas. Mais abaixo explicarei isso.

Já falei anteriormente sobre o uso que Malick faz de intertexto em "A Árvore da Vida". Creio que essa seja a principal causa de incompreensão em relação a essa obra, pois a principal fonte onde ele bebe é nada mais nada menos que a bíblia. Tenho que afirmar que só pude entender o tanto que entendi graças à leitura que fizera da bíblia na minha pré-adolescência. Independente de religião, creio que a leitura de algo desse livro seja crucial para compreensão da nossa civilização. Boa parte da leitura é até agradável. São boas as histórias contadas lá. Lê-la sem atribuir-lhe um sentido religioso é como ler Homero hoje em dia. Para mim, é uma coleção de histórias fantásticas que valem a pena ser lidas. Pude ver referências durante o filme ao livro de Jó e ao do Apocalipse; e à filosofia cristã sobre a graça. Referências essas que são cruciais para o entendimento do filme. Parece-me que hoje só já leu algo da bíblia quem for religioso praticante e eu sou exceção.

Spoilers a partir daqui.

O filme começa com uma citação do livro de Jó que diz um monte sobre o que se passa. Podemos dividir o filme em três partes, que chamaremos introdução, parte principal e epílogo. A introdução começa com a Srª O'Brien (Jessica Chastain) recebendo a notícia da morte de um de seus filhos, a partir do que acompanhamos o seu luto, bem como o de seu marido, o Sr. O'Brien (Brad Pitt). Um grande sofrimento toma conta da família e ecoa até os dias atuais na vida de seu filho mais velho, Jack (Sean Penn), agora um arquiteto trabalhando numa cidade irritantemente branca. As cenas, econômicas em diálogos, são preenchidas com a voz interior dessas três personagens, que se interrogam constantemente sobre várias assuntos relacionados entre si. No entanto, destaca-se o abalo que se processou na fé da Srª O'Brien por conta de Deus ter reservado um destino tão miserável, ver o próprio filho morto, a uma pessoa tão piedosa. Esses questionamentos escalam a uma espécie de revolta. Então, num paralelo com a história de Jó, vemos Deus nos mostrando, não com palavras, mas com imagens, ao som da lacrimosa de Zbigniev Preisner, o quanto o sofrimento humano (e as questões humanas em geral) é insignificante em relação à grandeza de Sua obra. São-nos mostradas imagens representando o nascimento e a formação das galáxias, estrelas e planetas. Vemos então a Terra primordial, o surgimento da vida nos oceanos e a diversificação dos seres vivos. Somos apresentados à história de um pequeno dinossauro que, incapaz de se levantar à beira de um rio, é alvo da gula de um predador que ali passava. No entanto, o predador hesita em desferir o golpe fatal àquela criatura indefesa, a partir do que presenciamos o nascimento da compaixão: ele deixa sua vítima viver e continua sua caminhada rio acima.

Essa parece ser a segunda parte mais odiada do filme. Na sessão em que eu estava, muita gente saiu nesse ponto, outros tantos não aguentaram o riso quando o dinossauro apareceu. Pouca gente parece apreciar alguns minutos ininterruptos de imagem sem diálogo, ainda por cima quando não entendem nada do que está se passando. Se eu estivesse nessa situação, também teria saído e, pensando direito, é engraçado mesmo ver um animal tão ridículo assim de surpresa.

O filme mostra então o impacto que resultou no fim dos dinossauros e, em seguida, o nascimento de Jack, bem como de seus irmãos. Então começa a parte principal do filme, em que é mostrado desenvolvimento de sua personalidade. Tal desenvolvimento é regido pelo conflito entre dois caminhos morais: o caminho da natureza, exemplificado pelo Sr. O'Brien; e o caminho da graça, personalizado na Srª O'Brien. Pode-se dizer que o maior parte do filme focaliza esse conflito dentro do jovem Jack.

Após um incidente em que um garoto do bairro morre afogado, e um em que outro garoto é vítima de um incêndio que o deixa parcialmente desfigurado, Jack começa a se questionar: "Como Deus pôde deixar uma criança inocente morrer?", "Se mesmo as pessoas bondosas sofrem, por que devo ser bom?". Paralelamente, as inconsistências do discurso moralizador de seu pai vão ficando aparentes. Desiludido com ambos os caminhos morais que lhe foram apresentados, ele tenta construir seu próprio caminho. Para isso, ele adota uma espécie de ceticismo hiperbólico ético: começa a destruir todo o edifício moral em que estava confortavelmente instalado, com o objetivo talvez não premeditado de achar a base sobre a qual refazer toda a estrutura. "Eu faço o que eu quero!", vocifera ele numa cena para a mãe. Essa demolição toma a forma prática de um hedonismo primitivo: ele experimenta vários atos que infringem a moral sob a qual foi criado. Entre elas: quebrar as janelas de um casebre abandonado, roubar a camisola de uma garota de dentro da casa dela, praticar bullying com os irmãos. Daí ele percebe que suas ações começam a machucar aqueles que ama, epifania que surge ao atirar com uma arma de chumbinho no dedo do irmão do meio, o mesmo que morreria dali a alguns anos. "Eu não faço o que eu quero. Eu faço o que eu odeio.", emenda nesse ponto.

A partir daí, presenciamos uma síntese dialética entre os dois caminhos opostos: vemos o Sr. O'Brien reconhecendo que errou ao ser tão rigoroso na educação dos filhos e que na verdade nada daquilo era necessário. Nada realmente importa tanto quando tomamos consciência da grandeza da natureza ao nosso redor. A segunda parte do filme termina com a notícia de que o Sr. O'Brien terá que mudar de emprego e que a família tem que sair da casa em que as crianças passaram toda a infância até então. A mudança parece se tornar uma metáfora para a saída da alma do corpo com o fim da vida. Uma pequena cena ilustra o fim inevitável da Terra engolida pelo Sol. Acaba a segunda parte do filme.

Um epílogo se inicia então. Pra mim esta é a parte mais emocionalmente tocante do filme. Parece ser também a parte mais odiada, pois é aquela em que as pessoas se perguntam "Esse filme não acaba nunca?". Trata-se da descrição da parte final do livro do Apocalipse. Os mortos voltam à vida e se reencontram numa praia. Toda a família O'Brien então se reúne novamente. É emocionante quando a Srª O'Brien reencontra o filho que perdeu. Duas figuras femininas (seria uma representação do Pai e do Filho?) acalentam as pessoas na praia. No final, a Srª O'Brien finalmente faz as pazes com Deus e sussurra "Eu o dou a Vós. Eu Vos dou meu filho.". É a conclusão da síntese dialética começada no final da segunda parte.

Nas últimas cenas do filme, mostra-se novamente Jack crescido em frente ao prédio onde trabalha. Parece que tudo foi uma epifania disparada a partir da visão do verde de uma árvore contrastando com as cores gélidas da cidade. 

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