Como o positivismo lógico influencia sua vida

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Neste post, pretendo comentar sobre uma corrente de pensamento surgida início do século XX e que dominou a epistemologia até a década de 50: o positivismo lógico. A parte relevante da coisa é que esse modo de pensar foi absorvido pelos pioneiros da mecânica quântica e passado de professor em professor até nós. Resultado: todo físico parece ser, anacronicamente, um positivista lógico no que se refere apenas à teoria quântica. Acho interessante entender que pensamento é esse que nos foi passado (a nós, físicos) por osmose em nossas aulas de quântica.

A história começa quando, em 1921, foi publicado o Tractatus Logico-Philosophicus* de Ludwig Wittgenstein, um livro bem curtinho, mas difícil de ser lido (sim, eu já tentei lê-lo, sem muito sucesso; livro denso e linguagem enigmática). Lá Wittgenstein faz uma análise profunda sobre o significado das palavras e das proposições, num claro sentido de formular uma base semântica para o desenvolvimento consistente de teorias filosóficas. Alguns filósofos do Círculo de Viena tomaram contato com o livro e nele encontraram eco para suas crenças, principalmente na proposição que diz, muito acertadamente na minha opinião, que entendemos o significado de uma proposição se e somente se sabemos quando ela é verdadeira e quando não é.

O pessoal do círculo de Viena interpretou essa afirmação de Wittgenstein da seguitnte forma: "O sentido de uma proposição é seu método de verificação". Ou seja, uma afirmação possui significado se e somente se for possível verificá-la. Um exemplo: para um positivista lógico, uma afirmação do tipo "O elétron tem momento p e está posição q" não faz sentido, pois não é possível verificar (i.e. medir) p e q ao mesmo tempo. Aí está a influência da coisa na teoria quântica. O positivista lógico não diz que não podem existir tais valores, ele só afirma que não faz sentido afirmar que existem. Como você pode ver, é uma coisa bem radical.

Eu não conheço nenhuma refutação a esse pensamento vindo de filósofos profissionais (não é que não existam, e existem muitas pelo que sei; eu só ainda não li nenhuma), mas a coisa é tão simples que acho que eu mesmo consigo refutar isso. Eu concordo com a conclusão de Wittgenstein de que só podemos dizer que entendemos uma proposição se sabemos em quais condições ela é verdadeira, mas isso não implica em que o sentido de algo é o seu método de verificação. Por exemplo, no experimento da dupla fenda, o pessoal fala que não faz sentido falar que o elétron passou por ou outra fenda e, de fato, não podemos verificar por qual fenda o elétron passou. No entanto, podemos imaginar que o elétron passou por uma determinada fenda mesmo sem ter como saber disso. Daí, se tivermos em mente que o elétron passou por aquela fenda se e somente se isso que imaginamos for verdade, compreendemos o significado da afirmação: "O elétron passou por tal fenda".

Se formos levar o positivismo lógico realmente a sério, também não faria sentido dizer que o elétron é um ponto, pois não temos como verificar isso. A chave da minha refutação ao positivismo lógico é o fato de que, mesmo se pudermos apenas imaginar as condições em que uma proposição for verdadeira, podemos sim dizer que entendemos o significado de tal proposição. É tão simples que eu fico me perguntando porque tanta gente se deixou levar por essa definição contraintuitiva de significado sem nenhuma razão aparente.

Talvez seja por uma corrente filosófica tão contraintuitiva ser passada a nós de forma tão banal que a teoria quântica pareça ser tão estranha.

*O Tractatus não foi a única influência dos positivistas lógicos, mas certamente foi a mais importante. 

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